Sensores monitoram saltos, deslocamentos e desgaste das atletas, enquanto comissão técnica acompanha estatísticas das adversárias durante as partidas.
A tecnologia ganhou espaço definitivo no banco e até no corpo das jogadoras da Seleção Brasileira feminina de vôlei. Durante a campanha que terminou com o título do Pré-Olímpico Sul-Americano e a classificação antecipada para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, a equipe comandada por José Roberto Guimarães utilizou uma combinação de dados em tempo real, tablets e sensores de telemetria para acompanhar tanto o comportamento das adversárias quanto o esforço físico das atletas brasileiras. Os equipamentos transformaram movimentos realizados dentro da quadra em informações que puderam ser analisadas pela comissão técnica. (ge)
Uma das imagens recorrentes durante a competição no Maracanãzinho era a do treinador diante de um tablet instalado próximo ao banco de reservas. O aparelho dava acesso ao scout em tempo real. Antes mesmo do início das partidas, a comissão observava dados relacionados ao saque e à recepção das adversárias durante o aquecimento. Durante os jogos, assistentes continuavam acompanhando as estatísticas e repassavam informações ao treinador, criando uma estrutura na qual observação tradicional e análise de dados funcionavam simultaneamente. (ge)
A tecnologia também acompanhava diretamente as jogadoras. As brasileiras utilizaram uma pequena braçadeira com sensor de telemetria durante as partidas. O dispositivo transmitia informações via Wi-Fi para o computador da preparação física e permitia acompanhar parâmetros como movimentação, quantidade de saltos, alturas máxima e mínima atingidas e deslocamento realizado em quadra. Depois dos jogos, esses registros ajudavam a construir um panorama do esforço físico realizado por cada atleta ao longo da competição. (ge)
Como funcionam os sensores usados pelas jogadoras do Brasil?
A braçadeira observada no braço das atletas funciona como uma ferramenta de telemetria. Durante a partida, o sensor coleta informações sobre os movimentos realizados pela jogadora e transmite os registros para a equipe responsável pela preparação física. Segundo José Roberto Guimarães, o sistema permite verificar quanto as atletas se movimentaram, quantos saltos realizaram e as alturas alcançadas. Dessa maneira, ações que antes dependiam principalmente da observação visual podem ser convertidas em informações mensuráveis para análise posterior. (ge)
No vôlei de alto rendimento, esse tipo de informação é especialmente relevante porque o esforço não pode ser medido apenas pela distância percorrida. Uma central, por exemplo, pode executar repetidas sequências de bloqueios e ataques que exigem grande quantidade de saltos, mesmo sem percorrer longas distâncias. Ponteiras e opostas também acumulam esforços explosivos durante ataques, bloqueios e deslocamentos defensivos. Por isso, informações sobre quantidade e intensidade dos movimentos ajudam a construir uma visão mais completa da carga física suportada pelas atletas.
Os dados não significam que uma máquina decide automaticamente quando uma jogadora deve sair da quadra ou descansar. Eles funcionam como mais uma fonte de informação para profissionais responsáveis pela preparação e pela tomada de decisões. O desempenho esportivo continua envolvendo avaliação técnica, condição física, contexto da partida e observação humana. A principal diferença é que a comissão passa a contar com registros objetivos capazes de complementar aquilo que treinadores e preparadores observam durante treinamentos e partidas.
Esse acompanhamento ganha importância adicional em competições concentradas em poucos dias. O Pré-Olímpico feminino foi realizado entre 8 e 13 de setembro, no Maracanãzinho, e o Brasil disputou cinco partidas nesse período. A equipe venceu Venezuela, Peru, Colômbia, Chile e Argentina por 3 sets a 0. A sequência curta entre os compromissos torna recuperação e controle de carga elementos relevantes para a preparação, sobretudo porque as atletas chegam à seleção depois de temporadas intensas em seus clubes. (ge)
Como o tablet ajuda José Roberto Guimarães durante as partidas?
Enquanto os sensores estão direcionados principalmente à condição física das brasileiras, o tablet utilizado pela comissão técnica tem uma função essencialmente tática. José Roberto Guimarães explicou que acompanha no dispositivo os números produzidos pelo scout, observando especialmente informações das equipes adversárias. Essa análise começa durante o próprio aquecimento, quando já é possível observar características relacionadas ao saque e à recepção das rivais. (ge)
O trabalho continua quando a bola entra em jogo. Integrantes da comissão permanecem no banco acompanhando os números lance a lance e fornecem informações ao treinador durante a partida. Isso permite cruzar o que está acontecendo visualmente na quadra com dados objetivos sobre determinados fundamentos. Uma sequência de dificuldades na recepção, por exemplo, pode ser identificada não apenas pela percepção dos treinadores, mas também pelos registros acumulados ao longo dos pontos disputados.
A tecnologia, entretanto, também depende de infraestrutura básica. José Roberto relatou ao ge que problemas de conexão Wi-Fi podem exigir reinicialização do sistema, motivo pelo qual costuma conferir o equipamento com antecedência. O mesmo dispositivo também é utilizado para verificar informações relacionadas à escalação oficial enviada para a transmissão. O episódio mostra uma característica importante da digitalização do esporte: quanto maior a dependência de dados em tempo real, maior também a necessidade de conectividade confiável dentro das arenas. (ge)
O uso de análise instantânea não elimina a experiência do treinador. Uma estatística pode indicar uma tendência, mas cabe à comissão interpretar por que ela está acontecendo e decidir se existe necessidade de alterar saque, bloqueio, posicionamento ou escalação. O resultado é uma combinação entre conhecimento acumulado e informação digital. No alto rendimento, o diferencial passa a estar não apenas em possuir grandes volumes de dados, mas em conseguir transformá-los rapidamente em decisões compreensíveis para quem está dentro da quadra.
O que a tecnologia representa para a preparação até Los Angeles 2028?
O primeiro grande resultado desse ciclo já está garantido. O Brasil derrotou a Argentina por 3 sets a 0, com parciais de 26/24, 25/19 e 25/16, no dia 13 de setembro, conquistou o Sul-Americano e assegurou uma vaga nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. A seleção terminou a competição invicta e sem perder um único set nas cinco partidas disputadas. A CBV confirmou ainda que o título foi o 24º Sul-Americano feminino conquistado pelo país. (CBV)
Os sensores e o scout digital não devem ser interpretados isoladamente como responsáveis por essa campanha. O Brasil entrou no torneio com superioridade histórica no continente e elenco de alto nível internacional. A tecnologia representa uma ferramenta complementar dentro de uma estrutura que envolve atletas, treinadores, preparação física, fisioterapia, análise de desempenho e planejamento. Seu valor está principalmente na capacidade de oferecer informações que podem tornar esse processo mais preciso.
Com a classificação olímpica obtida com quase dois anos de antecedência, a Seleção ganha um período importante para desenvolver o grupo. A equipe também já está classificada para o Mundial de 2027, que será disputado nos Estados Unidos e no Canadá. Até Los Angeles, monitorar a evolução física das atletas, testar formações e administrar cargas durante um calendário internacional exigente serão partes relevantes do trabalho da comissão técnica. (Folha de S.Paulo)
A experiência no Maracanãzinho mostra, portanto, uma transformação mais ampla do esporte de alto rendimento. O vôlei continua sendo decidido por saque, bloqueio, recepção, levantamento, ataque e decisões humanas, mas existe uma camada crescente de tecnologia funcionando nos bastidores. Cada salto pode gerar um dado; cada sequência de recepção pode alimentar uma análise; e cada partida pode produzir informações para o treinamento seguinte. Para a Seleção Brasileira, a preparação para Los Angeles 2028 já passa também por essa combinação entre quadra, ciência esportiva e dados.
Fontes:
ge — Do tablet ao GPS no braço: a tecnologia por trás do título do Brasil
CBV — Seleção feminina é campeã Sul-Americana e garante vaga em Los Angeles 2028
Folha de S.Paulo — Brasil garante vaga olímpica em Los Angeles 2028




