Altevir Seidel apresenta que, no Brasil rural, a relação com o cavalo foi de necessidade, eficiência e, em muitos casos, o único recurso disponível para vencer terrenos que nenhuma máquina alcançava. Décadas depois, algo curioso acontece: em plena era da mecanização agrícola, o cavalo de trabalho não desapareceu. Ele se reinventou. E há quem, como Altevir Seidel, represente uma geração que cresceu entendendo esse animal não como símbolo folclórico, mas como parceiro real de trabalho.
O país possui o maior rebanho equino da América Latina e o terceiro maior do mundo, com estimativas que ultrapassam 5 milhões de cabeças distribuídas por todas as regiões. Boa parte desses animais ainda cumpre funções produtivas diretas, especialmente em propriedades de pequeno e médio porte, onde o acesso de tratores e colheitadeiras é limitado pela topografia, pelo custo ou pela escala da operação. Em algumas regiões do Nordeste, do Centro-Oeste e do Sul, o cavalo continua sendo uma ferramenta de trabalho cotidiana, presente na lida com o gado, no transporte de insumos e na condução das atividades diárias da propriedade.
O que mudou não foi a presença do animal no campo, mas a forma como os produtores passaram a encará-lo. O cavalo de trabalho contemporâneo é criado com mais atenção ao manejo sanitário, à nutrição e ao bem-estar animal. Essa mudança de postura não é apenas ética. É econômica. Um animal saudável, bem alimentado e com acompanhamento veterinário regular produz mais, adoece menos e tem uma vida útil de trabalho significativamente maior.
Por que o cavalo ainda vence o trator em certas condições?
A comparação entre o cavalo e a mecanização agrícola costuma ser apresentada como uma disputa já resolvida, com vitória óbvia para a máquina. Mas quem trabalha no campo sabe que essa lógica é mais complexa do que parece. Em terrenos acidentados, com declives acentuados e solo úmido, um trator pode causar compactação severa do solo, erosão e danos à estrutura da terra cultivável. O cavalo, com seu peso distribuído de forma diferente e sua capacidade de adaptar o passo ao terreno, causa um impacto significativamente menor.

Em propriedades onde a escala não justifica o investimento em maquinário pesado, o custo-benefício do cavalo de trabalho ainda é competitivo. O animal não exige combustível fóssil, não apresenta problemas mecânicos e não depende de assistência técnica especializada para funcionar. Esse raciocínio prático é bem conhecido por quem, como Altevir Seidel, transita entre o universo do trabalho rural e as exigências da logística moderna, enxergando valor onde outros veem apenas tradição.
Há ainda um fator que raramente aparece nas análises econômicas: a versatilidade. Um cavalo bem treinado transita entre funções com uma adaptabilidade que nenhuma máquina oferece. Ele trabalha pela manhã com o gado, transporta cargas no período da tarde e ainda serve como meio de deslocamento do próprio produtor em propriedades extensas. Essa polivalência tem valor real, ainda que seja difícil de quantificar em planilhas.
A relação do cavalo e do agronegócio que a modernidade não apagou
Seria um equívoco imaginar que o avanço do agronegócio brasileiro empurrou o cavalo para a margem da produção rural. Em muitos segmentos, aconteceu o contrário. Segundo Altevir Seidel, a pecuária de corte e a criação de gado leiteiro em propriedades de médio porte continuam dependendo do cavalo para o manejo do rebanho, especialmente em fazendas onde a topografia inviabiliza o uso de veículos motorizados em todas as áreas.
No universo das raças especializadas para o trabalho, o Quarto de Milha e o Cavalo Crioulo se destacam pela aptidão ao trabalho com gado, pela resistência física e pela facilidade de treinamento. Esses animais são criados com critérios cada vez mais rigorosos, com registros genealógicos, avaliações de desempenho e até provas funcionais que atestam sua capacidade de trabalho antes da comercialização. O mercado de cavalos de trabalho de qualidade comprovada cresceu, e com ele a valorização dos criadores que investem em genética e manejo diferenciado.
O que a permanência do cavalo revela sobre o Brasil rural
A persistência do cavalo de trabalho no cenário agropecuário brasileiro diz algo importante sobre a diversidade do campo nacional. O Brasil não é apenas o agronegócio de larga escala com satélites, drones e colheitadeiras de última geração. É também o pequeno produtor que conduz seu rebanho a cavalo, o tropeiro que ainda usa o animal como meio de transporte em regiões de difícil acesso, o criador que mantém uma tradição viva não por apego sentimental, mas por conveniência prática e econômica.
Altevir Seidel faz parte desse Brasil que não abre mão do conhecimento acumulado sobre os animais, mesmo quando incorpora novas tecnologias e práticas modernas de gestão. O cavalo de trabalho, nesse contexto, não é um resquício do passado. É uma resposta eficiente a condições específicas que a mecanização ainda não conseguiu resolver por completo. E enquanto essas condições existirem, o animal vai continuar presente, trabalhando lado a lado com quem entende seu valor real e sabe reconhecer no campo a lógica que os números nem sempre conseguem explicar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez



